Franz Josef Brüseke

 

O discurso da igualdade: anotações sobre o politicamente correto

"Me desculpem boys, foi só uma idéia minha."
(KARL MARX, depois de saber do fim do comunismo)

"Depois que aprendi a cozinhar, ela me deixou."
(EX-MARIDO ANÔNIMO)

 

Quem não seria a favor da igualdade? Poucos valores sociais têm aceitação tão grande como este, o da igualdade. Os franceses, em 1789 já incluíram a egalité no tripé do ideário revolucionário: Liberdade, Fraternidade e, em lugar central, a Igualdade. Em conseqüência dessa revolução, o rei Luis XVI foi rebaixado ao nível de um cidadão comum, chamava-se então cidadão Capet e tinha que dizer bom dia ao outro como todos os outros. Ainda assim, era grande demais para o gosto dos igualitaristas; somente sem sua cabeça poderia integrar-se ao povo, isto é, ao coletivo dos iguais. A guilhotina1 impressionava por sua eficácia. Ao mesmo tempo, representou um anúncio: era a primeira máquina para matar seres humanos em posição absolutamente indefesa. A espada, como o machado na mão do algoz, eram instrumentos simples que exigiam força muscular humana para separar, com um só golpe, a cabeça do tronco. A guilhotina era diferente: como máquina moderna, permitia a produção de troncos sem cabeça, em série. Podia ser usada também em gráficas, para dar formato exato aos panfletos dos jacobinos e aos livros dos iluministas.2

A idéia da igualdade e o desejo de sua realização lembram o dilema das fantasias sexuais e o desejo de sua realização. Como fantasia, a idéia da igualdade é um complemento agradável da consciência política que dá uma resposta (fantasiosa) à difícil pergunta: como conviver com os outros? Fantasiamos que isso seria possível na igualdade, onde cada um é irmão do outro. Dizemos irmão do outro mas perguntamo-nos: por que não avô, mãe, filho ou irmã do outro? O discurso da igualdade faz esquecer as complexas estruturas do parentesco, que são sempre estruturas que vinculam desiguais. Desiguais em idade, em gênero e em habilidade. A irmandade está no centro do discurso da igualdade desde seus primórdios. São os homens militarmente ativos, os guerreiros, que se identificam mutuamente como iguais. Dessa forma tendem a externar sua diferença com todo vigor. Internamente são irmãos vinculados pela promessa da fidelidade e pela honra que define qualquer rompimento de laços fraternos como traição. Fidelidade, honra, traição… são muito fortes os suportes valorativos da igualdade, nas irmandades dos cavalheiros que encontram nas comunidades monasteriais medievais de ambos os sexos, seu complemento.

Os fratres são irmãos espirituais que, para realizar sua fantasia de igualdade, tinham que se separar de seus pais e abdicar ao casamento, o que incluía desistência da possibilidade de se tornar-se pai (literalmente). O frade podia ser pai somente como padre, um pastor de um rebanho de iguais. Essa paternidade pastoril era vinculada de forma especial com a ídéia de irmãos e irmãs em Cristo; perante Deus, todos eram iguais; eram os filhos de Deus, que formavam um rebanho de ovelhas unidas fraternamente. Hoje consideramos constrangedor e mesmo ridículo ver um cidadão identificado com uma ovelha, preferindos sermos vistos como consumidores ou eleitores, também todos iguais, dessa vez não perante Deus, mas perante a Lei. Para os medievais seria completamente incompreensível considerar a Lei mais importante do que Deus e valorizar mais o papel de comprador na feira do que aquele de ovelha no rebanho do nosso pai celeste.

O discurso da igualdade, alimentando a fantasia da igualdade com a promessa de sua realização fez, desde os dias da revolução francesa, muito sucesso e uma curiosa carreira. Por um lado, venceu todos os discursos competidores desclassificando-os como ideologias. Hoje, por exemplo, ninguém mais têm coragem de defender a nobreza: denunciamos como privilégio qualquer resíduo feudal nos tempos modernos. Igualmente, qualquer teoria de supremacia de uma raça humana atrai logo o fogo pesado do discurso da igualdade de todos os homens. E de todos incluindo as mulheres, subentende-se. Todos nós somos iguais, somos tão iguais que mesmo as marcas que a desigualdade deixou em nossa linguagem é alvo de ataques e reformas. Assim, usar o conceito raça humana também com intenção anti-racista é algo que pode facilmente evocar a ira dos iguais. Quem nunca hesitou, em sociedade, em denominar alguém de negro ou preto? A solução de um amigo mineiro é chamar a todos de morenos, até os brancos.

Falamos do sucesso e da curiosa carreira do discurso da igualdade. O que seria esse "curioso" desta carreira? Ele consiste basicamente no dilema já mencionado: a realização de uma fantasia destrói a fantasia no exato momento de sua realização. Resta saber se a realização de uma fantasia é igual à fantasia. Pensando nisso, encontro-me como igual entre iguais na fila em frente a uma padaria em Moscou. A fila é longa, o frio é para desistir de qualquer fantasia… somente quero realizar um jantar com pão, manteiga e um copo de leite quente, como os demais à minha frente. Eles querem a mesma coisa, querem comprar pão e leite, somos iguais e nossa boa educação (comunista) faz com que respeitemos a fila. Somos iguais, pois o fato de que os outros estão em minha frente aumenta suas possibilidades de conseguir um dos últimos pães antes de mim. Curioso, penso eu, enfileirados, os iguais formam uma nova hierarquia e vejo como a filha do vizinho, de salto alto e calça colada, consegue furar a fila. Da próxima vez vou mandar minha mulher. Sobre o dono da padaria resta fazer um curto comentário. Conhecemo-nos desde os tempos do partido; ele era militante e um excelente orador, de origem humilde, que conseguiu subir rápido. Foi ele quem me convenceu a entrar no partido. Seus argumentos eram realmente irresistíveis. Um bom comunista, destes que ainda tinham ideais, acho eu, pois minha mulher, que não acredita mais em nada, pergunta-me por que hoje ele é o dono da padaria e eu continuo na fila. Sei lá! Tenho apenas uma certeza: da próxima vez, é ela quem vai comprar pão.

O discurso da igualdade é, antes de mais nada, discurso. Freqüentemente esquecemo-nos isso e o confundimos com a realidade ou com um programa em processo de realização. Como discurso, ele é dependente daquele que fala. Quem fala? Naturalmente, são poucos que falam em nome de muitos. Os que falam melhor em nome de muitos são os que avançam, em tempos modernos. Os inteligentes oradores massacram os decadentes parasitas da aristocracia européia com argumentos! Os argumentos racionalistas, as boas idéias iluministas e a guilhotina têm um alvo em comum: a cabeça de todos que se opõem ao discurso da igualdade. O poder do argumento melhor, do qual Adorno fala, é poder mesmo. Demoramos a entender isso. Sempre escutamos argumentos, mas somente o argumento melhor, quando escutamos: "Vale somente o poder do argumento melhor."

O discurso da igualdade foi o único capaz de fazer com que as circunstâncias começassem a dançar (Marx), pois conseguiu tocar sua própria melodia. Foi o discurso que captou as ansiedades das massas sem terra, sem teto e sem emprego no contexto da emergência da sociedade industrial, sociedade cada vez mais dependente das massas assalariadas. O discurso da igualdade penetrou os sindicatos e organizações dos operários e fez-se ouvir na Europa do século dezenove, que tinha cada vez menos força de resistência contra os argumentos melhores de um Lassalle, de um Liebknecht, de um Bebel, de um Jaurés e de muitos outros oradores brilhantes de origem social humilde ou, freqüentemente pequeno-burguesa. O que foi ensaiado na França do final do século dezoito foi repetido e realizado em todos os países europeus, em cada um à sua maneira, freqüentemente após várias tentativas fracassadas e derramamento de sangue. A realização, no entanto, não foi exatamente o que as massas fantasiavam, pois gerou-se um grande ciclo de rotação das elites. As velhas elites aristocráticas, clericais e militares foram substituídas pelas novas elites portadoras do discurso da igualdade. Não foi um processo homogêneo, nem uma retórica única, que fez as circunstâncias dançarem. Podemos distinguir três discursos vitoriosos que, apesar de contribuir e acompanhar a substituição de velhas elites sob o signo da igualdade, levaram a conseqüências políticas bem distintas. Primeiro, trata-se do discurso racista-populista, que restringiu a idéia da igualdade à coletividade dos culturalmente ou racialmente iguais; trata-se, segundo, do discurso comunista, que restringiu a idéia da igualdade à classe operária e a seus aliados, principalmente os camponeses e aqueles socialmente desclassificados; e terceiro, do discurso liberal-democrático, que integrou a idéia da igualdade em sua concepção de um estado de direito.

Ter sonhos é normal e, como dizem os psicanalistas, é até saudável. Igualmente nossas fantasias fazem parte de nossa vida interior, que seria mais pobre sem aquelas. Nossas fantasias chamam-se fantasias justamente porque são, em sua plenitude, irrealizáveis. Ter fantasias sexuais é normal, tentar realizá-las pode, dependendo do conteúdo da fantasia, transformar uma pessoa normal em um psicopata. O lugar da fantasia é o reino da imaginação e não a praça pública. O desejo de devorar uma pessoa amada pode, como Freud nos explica, emergir na alma de uma pessoa completamente normal. No entanto, não é recomendável insistir na realização dessa fantasia, porque sua realização não é o que promete; ela não é prazerosa. Se é, estamos frente a um caso para manicômio. O que tem o discurso da igualdade a haver com o manicômio? Eis aí a questão.

Temos que nos perguntar hoje, depois de termos sobrevivido ao século XX, o que as boas idéias têm a haver com os banhos de sangue dos quais escapamos: escrevemos a história contemporânea da perspectiva de sobreviventes e temos que examinar fato por fato, idéia por idéia, para evitar que a próxima cabeça a ser cortada seja a nossa. O que parece crucial é exatamente isso: o surgimento da idéia da idéia. A idéia de que pode existir algo como uma idéia é de Platão. Isso parece ter tido pouca força para influenciar a história e ainda menos para ter sido responsável por boa parte dos nossos problemas de hoje.

A idéia não é idêntica à realidade; ela é uma representação dessa realidade, uma representação limpa de impurezas, de pequenos desvios e de distorções. A idéia confronta algo real, como uma palmeira, com a idéia desta palmeira; assim, ela representa uma palmeira típica ou ideal em nossa mente. Parece que somente podemos saber o que é uma palmeira quando temos essa imagem ideal, essa idéia da palmeira em nossa mente. Se não tivéssemos, a palmeira torta em nossa frente poderia ser uma planta qualquer. Também seria somente uma planta qualquer se soubessemos o que é uma planta… na verdade sequer sabemos o que é uma planta; temos apenas a idéia de uma planta.

Desde os dias de Platão verifica-se a distinção entre realidade e idéia. Para ele, a idéia do Belo faz com que as coisas belas sejam belas. Essa distinção está na base daquilo que chamamos pensamento metafísico; pensamento que penetrou profundamente a maneira de pensar o mundo. Platão, todavia, não deve ser responsabilizado pelo achatamento do pensamento metafísico subseqüente; ele sabia que o conhecimento do belo somente é possível quando o homem possui parentesco interno com o Belo. O mesmo vale para a percepção do Bem e do Mal. O Bem e o Mal são muito mais do que uma mera representação social, como visto em seu sentido atual.3

A idéia, em Rousseau, começa a tocar o chão, isto é, ela começa a se tornar não somente uma representação ideal daquilo que é, mas uma idéia daquilo que deveria ser. A idéia transformou-se no ideal. Em Platão vê-se como a boa idéia seduz o homem a tentar sua realização. O filósofo chegoe mesmo de ir para para Syrakus, na Sicília, em 366 aC., com a intenção de realizar suas boas idéias sobre a república, oferecendo seus serviços de filósofo ao ditador Dionysios II. Malmente, e sem realizar suas idéias, Platão conseguiu voltar com vida à Grécia. Também Dion, aluno do mestre que expulsou Dionysius de Syracus, conseguiu somente estabelecer mais um regime tirânico na Sicília, sendo morto por um de seus antigos companheiros. Platão relata sua decepção sobre esses acontecimentos na famosa sétima carta, onde afirma o desejo que os dirigentes dos grandes estados sejam filósofos, o que não deixa de ser uma boa idéia.4

Uma vez estabelecida a diferença entre idéia e realidade, abre-se a possibilidade de ter idéias sem que necessariamente um fenômeno real corresponda a elas. A idéia pode ganhar força de convicção na base da dinâmica interna que estabelece uma relação e uma movimentação exclusivamente entre idéias. Muitos pensadores tinham idéias assim, como Rousseau, por exemplo, que teve a boa idéia de uma vontade geral que pairava, como idéia, acima das cabeças e dos interesses reais dos homens. A vontade de cada um, real e egoísta, estaria na base da soma de todas as vontades; a chamada vontade de todos. A vontade geral, pura, nobre e livre de distorções reais seria aquilo que nos deveria preocupar. É ela que une os homens e faz com que, uma vez realizada, cada um viva em harmonia e felicidade com os outros, pois a vontade geral é sempre dirigida para o bem comum. Uma idéia simpática, essa idéia de Rousseau, ela foi uma boa idéia, como muitas outras, modernas, que surgiram em conseqüência dessa. Todavia, já em Rosseau anuncia-se o preço a ser pago pela manutenção da vontade geral. O contrato social evoca a lei que, como expressão da vontade geral, "jamais se deve sustar… senão quando se trata da salvação da pátria".5

Não é curiosa a proximidade entre o discurso da liberdade, da igualdade e da fraternidade, por um lado, e a defesa da ditadura, por outro? Não é compreensível que um autor como Voltaire se perguntasse como alguém pode elaborar belos tratados sobre a educação e colocar todos os seus cinco filhos no orfanato? De onde vem essa falta de coerência? De onde vem a estupidez da inteligência? Não se diga que isso seriam somente questões filológicas. Robespierre, um admirador ardente de Rousseau, mostrou onde leva o abraço da virtude com o terror. Inacreditável é que, até hoje, festejamos a revolução francesa como se ela não tivesse nada a haver com o terrorismo das virtudes executadas pela guilhotina. A revolução francesa ainda hoje nos impressiona como uma boa idéia, senão, como a realização da fraternidade, da igualdade e da liberdade. Não é lembrada como terreur jacobino e como prelúdio da ditadura napoleônica.

Num primeiro momento, a separação entre idéia e realidade é algo estático, é uma relação vertical sem dinâmica e sem chance de evolução. Com Marx, no entanto, a idéia não se mostra mais acima das pessoas, como o céu acima da terra, mas a sua frente. A relação entre realidade e idéia torna-se, pode-se dizer, horizontal. O comunismo aparece como o telos da história; como tal, ele atrai os movimentos reais, faz com que as forças produtivas cresçam em sua direção e as classes operárias e burguesas se confrontem numa última batalha. É claro que Marx não podia admitir que também ele somente tivera uma boa idéia. Inteligente, sabia das armadilhas do idealismo e por isso apontou leis históricas que seriam responsáveis pelo progresso da humanidade e pelo agravamento das contradições internas do capitalismo. A necessidade histórica tinha que eliminar a contingência da realidade histórica; somente assim a boa idéia marxiana poderia-se mostrar com a autoridade de uma descoberta científica e não como uma mera invenção sociológica.

O que fazer quando a história não segue suas leis? O que fazer quando o proletariado se nega a assumir sua função histórica, objetivamente definida? Esse era o problema de Lenin e dos revolucionários russos. Então o problema não era mais tão grande, pois os revolucionários já tinham um referencial histórico: o terrorismo jacobino da revolução francesa.

Os comunistas russos promoveram a realização da idéia da igualdade tendo por base um conceito classista. Em conseqüência disso, tinham que marginalizar ou eliminar todos os elementos sociais retrógrados ou aqueles que não aceitavam a boa idéia comunista. Na Rússia de 1917, o proletariado era quase inexistente, não ultrapassava cinco por cento da população. Os portadores da boa idéia, o partido leninista, tinha então plena razão em abrir fogo contra esse inaceitável atraso. Em tom original:

"É evidente que está sendo preparado um levante de soldados do Exército Branco em Nijni-Novgorod […] É preciso formar imediatamente uma troika ditatorial […] introduzindo imediatamente o terror de massa, fuzilar ou deportar as centenas de prostitutas que dão de beber aos soldados, todos os ex-oficiais, etc. Não há um minuto a perder … É necessário agir com decisão: prática em massa de buscas. Execução por porte de arma. Deportações em massa de mencheviques e outros elementos suspeitos."6

No dia seguinte enfatiza Lênin:

"Camaradas! O levante kulak nos cinco distritos de sua região deve ser esmagado sem piedade. Os interesses de toda a revolução o exigem, pois a luta final com os kulaks está dorovante engajada por toda parte. É necessário dar o exemplo: 1) Enforcar (e digo enforcar de modo que todos possam ver) não menos de 100 kulaks, ricos e notórios bebedores de sangue. 2) Publicar seus nomes. 3) Apoderar-se de todos seus grãos. 4) Identificar os reféns […]. Façam isso de maneira que a cem léguas em torno as pessoas vejam, tremam, compreendam e digam: eles matam e continuarão a matar os kulaks sedentos de sangue. Telegrafem em resposta dizendo que vocês receberam e executaram exatamente estas instruções. Seu, Lênin."7

É isso aí, meu companheiro. Muitos não queriam acreditar, em 1914, que a social-democracia alemã ia votar em favor dos créditos de guerra, o que significaria de fato uma votação em favor da guerra. Nem Lênin queria acreditar que somente Karl Liebknecht tinha votado contra e achou que o jornal com a má notícia, que tinha nas mãos, fosse uma falsificação do serviço secreto alemão. Os social-democratas alemães, por sua vez, não queriam acreditar que seus companheiros russos mandaram matar sem processo, sem acusação formal, sem advogado e sem um mínimo de remorso. Maus tempos esses primeiros anos do socialismo russo. Tempos ainda muito piores chegariam.

Antes mesmo que pudesse abordar os cerca de seis milhões de mortos em conseqüência da coletivização forçada e das 680 000 execuções só nos anos 1937 e 1938, pergunta um aluno: E os nazistas, professor?!

Gosto de meu aluno, ele é um dos melhores da turma e distribui, nos fins de semana panfletos em favor dos sem-terra, em uma tentativa para diminuir a desigualdade no país. Merece então uma resposta, à altura. Já que é inteligente, respondo com uma pergunta: O que tem uma coisa haver com a outra? Resposta do aluno: A direita também matava e ainda muito mais. Minha intervenção rotineira: Você quer dizer, então, que os crimes do nacional-socialismo desculpam os crimes do comunismo soviético? O aluno, como todos os outros que me fizeram antes essas perguntas, se rendeu. Não, isso não, diz ele espantado pela lógica do seu próprio argumento. Não aprofundei mais o tema; temos, depois da abertura da maioria dos arquivos na ex-união soviética, dados que fazem crer que o comunismo russo fez mais vítimas do que o nazismo. Se incluirmos China, Cambodcha, Laos, Vietnam, Corea do Norte e Cuba nesta comparação macabra, não resta dúvida: as vitimas que o nacional-socialismo alemão fez são em menor número, comparados com o número de vítimas da experiência comunista. Trata-se de uma comparação macabra, como afirmado, que não explica nada, não desculpa nada e somente aumenta nosso horror frente ao século vinte, do qual escapamos com vida.

Como reencontrar o bom humor depois de nosso tema, o discurso da igualdade, ter tomado um rumo tão sangrento? Já que a indústria cultural aplica com sucesso a receita Sex and Crime, quando se trata de escolher temas televisivos, faremos o mesmo. Já falamos sobre crimes, vamos falar agora sobre sexo. Sexo não exige, ainda mais do que outras áreas de nossa vida social, uma boa aplicação de igualdade?

De onde vem esta crença na existência da igualdade entre homem e mulher? O óbvio é que não há igualdade! Há aqueles que querem se livrar da casca desconfortável com a qual a civilização nos vestiu. Fazem exercícios diversos e terapias custosas para conseguir o quê? Gozar a vida! Ora, gozar a vida qualquer malandro sabe, bastam alguns dólares e qualquer momento do dia torna-se uma happy hour. Gozar; a capacidade de gozo é o indicador mais preciso para medir os danos civilizatórios em nossa alma. Ela diminui com o crescimento da inibição social, diminui d acordo com o grau no qual estamos sendo educados e civilizados. Comparando uma morena amazonense com uma doutora cor-de-rosa, podemos achar uma ou outra mais bonita; questão de gosto, podemos até achar que a doutora mais inteligente, mas dificilmente supera a capacidade da morena de curtir o momento dado, incluindo o distraído e mau intencionado malandro que já a está olhando.

Encontramos a doutora no balcão, pois ela é igual aos homens e sai sozinha, conta que toma Lexotan há dez anos sem parar pois tem, como ela se expressa, síndrome do pânico. Sem tranquilizer entra em pânico mesmo. Em compensação, nos diverte com conhecimentos cultos: um bom papo sobre a Montanha mágica, de Thomas Mann, com ela mesma. Porque revelei o nome do autor? A doutora já sabia, quando citei o título do livro que o autor é Thomas Mann. Perdeu o marido e não sabe porque. Faz terapia para saber porque. Depois de quatorze anos de casamento, ela descobre que não conhece o marido e agora descobre como são os homens. Estes homens que juram que são diferentes, singulares e raros exemplares do macho fiel e desinteressado em sexo com outras fêmeas. Acreditou e se ferrou. Acreditou que o marido dela era igual a ela. Não era. Era como os outros homens, apesar do fato de ser, também, doutor. Demorou para descobrir seu lado feminino, pardon: seu lado masculino e pulou a cerca. Aliás, com uma bela amazonense, que está fazendo supletivo do segundo grau.

As tristes me desculpem, mas essas coisas são para rir mesmo! Aprendemos tudo pelo contrário. Na verdade, desaprendemos o que qualquer gata-vira-lata sabe, basta observar este dueto de acasalamento que é, ao mesmo tempo, um duelo. O belo macho da minha vizinha perdeu, no último cio da minha gata-vira-lata, um olho. O que vale um olho de pedigree? Eu nem sei, fiquei com pena e confessei à vizinha que foi a minha gata que acabou com a beleza do gatão siamês dela. A vizinha não fala mais comigo desde esse dia. Também, porque falei? O gato nem quer saber; perseguiu a minha gatinha vira-lata com uma insistência que ela, imagine, visivelmente curte! Aceita um macho de um olho, que nem sabe nada da Montanha mágica, mas deve saber coisas que não sabemos. Seus gritos vitoriosos no quintal me dizem que sim.

Perdi-me com essa história dos gatos. O que queria dizer mesmo? Ah, não há novidades. E ainda mais: a desigualdade tem também seu lado positivo. Vou parar por aqui, pois já estamos há tempo fora do campo do politicamente correto. Pelo menos a minha mulher acha. LC

Notas

1 Guilhotina: instrumento de decapitação, no qual o golpe é desferido por uma lâmina triangular precipitada de certa altura. (Aurélio, 10. ed.)

2 Guilhotina: máquina para cortar papel em quantidade, cuja peça principal é uma poderosa faca ou navalha que, ao descer de viés sobre o monte de folhas, o divide no ponto exato. (Aurélio, 10. ed.)

3 Neste contexto, diz Platão: "Por isso nenhum homem razoável vai ousar expressar aquilo que foi pensado por ele nesta linguagem fraca e ainda menos nesta forma imóvel, que é própria daquilo que é escrito." Platâo, Der siebente Brief [a sétima carta], Stuttgart, Reclam, 1951, p. 36; aqui não cabe aprofundar esse tema; todavia, apontamos as leituras "místicas" de Platão, apresentadas por Plotin e uma corrente de pensadores freqüentemente marginalizados. Parece sedutor levantar a hipótese de que a força da idéia surge devido ao seu contato com o indizível, presente em Platão. O materialismo do século dezenove vai trocar a idéia pela lei, com amplas conseqüências.

4 Platâo (1951), Der siebente Brief [a sétima carta], Stuttgart, Reclam.

5 Rousseau, Jean Jacques (1997), O Contrato Social. Os Pensadores, Vol. I. São Paulo, Nova Cultural, (1757), p. 225.

6 Telegrama de Lênin do 9 de agosto de 1918 ao presidente do Comitê Executivo do Soviete de Nijni-Novgorod, in: Lênin, Polnoie sobranie socinemii [Obras completas], Vol. L. p. 142.

7 Lênin, fonte: CRCEDHC, 2/1/6/898; conforme Stéphane Courtois e outros O livro negro do comunismo, Rio de Janeiro, Bertrand Russel, (1997), 1999, p. 91.

Referências Bibliográficas

Platâo (1951), Der siebente Brief [A sétima carta], Stuttgart, Reclam.
Rousseau, Jean Jacques (1997), O Contrato Social. Os Pensadores, Vol. I. São Paulo, Nova Cultural (1757).
Lênin, Telegrama do 9 de agosto de 1918 ao presidente do Comitê Executivo do Soviete de Nijni-Novgorod, in: Lênin, Polnoie sobranie socinemii [Obras completas], vol. L. p. 142.
Courtois, Stéphane e outros (1999), O livro negro do comunismo, Rio de Janeiro, Bertrand Russel, (1997).


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