Héctor Ricardo Leis & Sérgio CostaDormindo com uma desconhecida: a teoria social contemporânea visita a intimidade
INa França, a inflexão teria vindo com data e hora marcadas. Naquela noite de 1983, quando uma certa Viviane anunciou na televisão que seu amado Michel sofria de ejaculação precoce e que ela própria nunca tivera prazer sexual digno do nome, uma parte significativa da cultura cívica republicana estaria caindo por terra. A transformação de agruras íntimas em espetáculo público revelaria, para alguns, a perda de qualidade política do espaço público enquanto esfera política e a violação da intimidade enquanto refúgio impenetrável de auto-construção do self.1 Com efeito, somam-se recentemente vozes discordantes da quebra da intocabilidade da esfera íntima. Essa objeção à conversão da intimidade em tema de interesse público não seria, contudo, a resistência conservadora do patriarcalismo ao avanço do feminismo que mostrou de forma convincente como a opressão masculina sobre as mulheres começa na penumbra do quarto de dormir? Em outras palavras, será que a possibilidade de transferência para o espaço público das questões íntimas não seria uma consequência lógica e uma radicalização da idéia que funda o feminismo contemporâneo de que “tudo que é privado é político”? A tese que defendemos nesse artigo é que a publicidade da intimidade, fenômeno coetâneo e indissociável do processo social de universalização da mídia eletrônica, não se confunde necessariamente com as transformações iniciadas pelo feminismo e sintetizadas na reivindicação da politização da esfera privada. Entendemos que as esferas do privado e do íntimo dizem respeito a campos distintos da vida social. Conceitualmente, a intimidade refere-se a um campo de experiências singulares, trata-se de um universo marcado por ações cujo sentido não é decodificável socialmente, nem universalizável politicamente. Os sentidos das ações íntimas são construídos fora daquelas condições de partilhamento amplo que, sabemos desde Weber, marcam as relações sociais. Na intimidade, constróem-se códigos, formas, gestos, linguagens que só podem ser perfeitamente compreensíveis por aquela ou aquelas pessoas envolvidas diretamente na relação íntima. Mais importante que os fatos objetivos que marcam os movimentos dessa relação íntima são os significados partilhados pelas pessoas nela envolvidas; a certeza de que os códigos nela criados são singulares e exclusivos representa o imperativo de constituição da própria situação íntima. Quando se transportam para o espaço público os fatos que marcam uma relação íntima, só se pode fazê-lo destituindo tais fatos dos sentidos que lhe são próprios, despindo-os, portanto daquilo que os constitui como íntimos. De fato, a pretensão de que é possível levar a intimidade para o espaço público pressupõe uma operação de simplificação e/ou mutilação da realidade, na medida em que se desconhece que o surgimento da intimidade introduziu uma dialética de novo tipo entre o indivíduo e a sociedade, muito mais complexa e rica do aquela que existia anteriormente quando a vida social se restringia às esferas do privado e do público. Historicamente, a intimidade representa um dos eixos centrais de constituicão da modernidade e do indivíduo moderno. Foi recentemente que os historiadores começaram a chamar nossa atenção para o fato de que nas residências medievais não existia nenhum tipo de vida íntima. De modo geral, o padrão de relacionamento básico era a promiscuidade, as pessoas compartilhavam todos os processos e momentos de sua existência (Duby, 1991). Marcados que somos pela sociabilidade moderna, temos dificuldade para registrar e entender o sentido de uma vida social onde ninguém era deixado sozinho. Mas era isto precisamente o que acontecia até o fim do século XVII. Não foi nenhuma revolução política ou social, mas o surgimento de uma esfera da intimidade que permitiu aos indivíduos realizarem seus projetos como pessoas dotadas de uma identidade própria e particular. Sem intimidade, parece difícil imaginar como os indivíduos poderiam realizar uma experiência única e particular de estar no mundo. A velocidade e as incertezas que marcam as transformações contemporâneas levam ao esgarçamento das formas de construção da identidade que emergem com a modernidade, fazendo dos processos presentes de constituição do self núcleos ao mesmo tempo reprodutores e catalisadores de mudanças sociais (Castells, 1997: 6 ss). Elias chama a atenção de que em cada transição de uma forma menos complexa para outra mais complexa de organização social, como a que se vive hoje, modifica-se de modo caraterístico a relação entre indivíduo e sociedade (Elias, 1994: 139). Esta circunstância obriga os analistas sociais a um esforço de interpretação da realidade, no qual devem evitar partir de qualquer pressuposto que afirme a prioridade ontológica dos indivíduos ou da sociedade em relação a um determinado problema. Ainda que não seja difícil reconhecer que existe uma relação estreita entre os processos que levam a uma crescente globalização e modernização da sociedade e aqueles que levam a uma não menos crescente individualização, persiste tarefa complexa explicitar o caráter dessa relação. Nesse caso, há que se fugir das interpretações apressadas que levem a supor que ambos processos têm o mesmo sentido e/ou se explicam pelas mesmas causas e/ou teorias. Hoje, a maioria das pessoas sabe pela ecologia que a modernidade tem mudado as “regras do jogo” entre a sociedade e a natureza, reinventada pela técnica moderna. Mas talvez não sejam tantas as pessoas que sabem tão claramente que a “dialética do iluminismo” também afetou o desenvolvimento dos indivíduos não menos radicalmente que a natureza. Zeldin afirma que hoje é difícil saber se a vida privada –na qual se inclui, para o autor, a intimidade– vale mais do que a vida pública ou vice-versa (Zeldin, 1996: 411). Com efeito, na intimidade se expressam aspectos da condição humana cujos componentes dificilmente são redutíveis a relações políticas ou econômicas. Surpreende então que não chame devidamente a atenção o fato dos seres humanos viverem no paradoxo de exprimirem de modo direto (e, as vezes, quase brutal) suas preocupações mais íntimas, sem perceber o caráter de tais revelações. Perguntar pela intimidade nos parece um tema central para entender o presente. Parece-nos mesmo um caminho viável para encontrar pistas que nos levem a saber se estamos hoje situados frente às possibilidades otimistas da reflexividade que Giddens e Beck, entre outros autores, atribuem à modernidade radicalizada, caraterística de nossa época ou, pelo contrário, frente às possibilidades pessimistas anunciadas pelo homem-massa moderno, que transforma em destruição seu medo de qualquer intimidade com o outro.2 Não pretendemos elaborar aqui um quadro completo dos estudos existentes sobre a intimidade, trata-se de uma análise de trabalhos de alguns pensadores contemporâneos –nomeadamente Giddens, Beck & Beck-Gernsheim, e Melucci– buscando-se avaliar até que ponto conseguem problematizar ou, pelo contrário, simplificar o tema da intimidade, privando-nos assim, paradoxalmente, de continuar desenvolvendo um dos mais preciosos legados da modernidade. As insuficências das análises sobre a intimidade são reveladoras, conforme entendemos, de dificul-dades mais gerais da teoria social contemporânea de decodificar analiticamente alguns dos processos de transformação em curso. IIO trabalho de um dos maiores expoentes da sociologia contemporânea, Anthony Giddens,3 em seu esforço de estudar a intimidade como uma dimensão quase secreta –não revelada– pela identidade pública do homem e da mulher modernos, constitui um testemunho importante e revelador das dificuldades da teoria social contemporânea em lidar com a intimidade. Através de uma operação sociológica convencional, reunindo dados, surveys e informaçðes diversas, o autor mostra as mudanças de comportamento no que chama de esfera da intimidade, enfatizando, sobretudo, a transformação no papel da mulher e a liberalização da moral sexual. Essa primeira aproximação leva-o a situar a sexualidade no esquadro mais geral de sua teorização das sociedades complexas contemporâneas, revelando que o padrão de comportamento sexual, como a própria sexualidade, deixou de ser algo dado naturalmente ou herdado, é também dimensão construída pelo indivíduo que pensa a si próprio: “um aspecto maleável do ‘eu’, um ponto de conexão primário entre o corpo, a auto-identidade e as normas sociais […], uma ‘propriedade’ potencial do indivíduo” (Ibid.: 25 e 37). No debate com Foucault, a especificidade conferida por Giddens às formas atuais de vivência da sexualidade, vêm novamente à tona. Para o autor inglês, não se pode tratar da mesma maneira as narrativas médicas sobre a sexualidade da era vitoriana e as formas de difusão contemporânea do tema. Para Giddens, sua generalização na mídia e em outros meios de divulgação fez da sexualidade tema constitutivo da reflexividade do homen contemporâneo. Correlatamente, o corpo não é apenas o objeto sobre o qual age o poder disciplinar. Ele é, antes de tudo, “um portador visível da auto-identidade, estando cada vez mais integrado nas decisões individuais do estilo de vida” (Ibid.: 42). Na passagem mais normativa de sua reflexão, Giddens elege uma forma particular de relacionamento como aquela que melhor corresponde ao “projeto reflexivo do eu” nas sociedades modernas. Trata-se aqui do “relacionamento puro”, caracterizado como uma “situação em que se entra em uma relação social apenas pela própria relação, pelo que pode ser derivado por cada pessoa da manutenção de uma associação com outra, e que só continua enquanto ambas as partes considerarem que extraem dela satisfações suficientes, para cada uma individualmente, para nela permanecerem” (Ibid.: 69). O relacionamento puro se realiza, via de regra, no “amor confluente” que, diferentemente do amor romântico é datado e contingente. A antítese do relacionamento puro é a co-dependência, situação em que as próprias necessidades pessoais só podem ser formuladas e definidas na presença do outro do qual se depende. A relação, nesse caso, se torna o objeto do vício do dependente patológico. Este modelo dual do relacionamento puro (e seu par, amor confluente) versus co-dependência (e seu par, amor-vício) vai sendo complexificado, reconhecendo-se que há aí uma tensão permanente que busca empurrar o relacio-namento puro, na medida, por exemplo, em que a intimi-dade e a cumplicidade aumentam, para a co-dependência. Ainda assim, Giddens parece convencido da po-ssibilidade e da capaci-dade de seu indivíduo reflexivo de “isolar” relacionamento puro, vivendo-o em sua plenitude e de forma inconfundível. Os desdobramentos propriamente políticos das transformações da intimidade ocupam também um lugar importante na reflexão de Giddens. O autor mostra que o campo da intimidade tornou-se em esfera fundamental de concretização das conquistas emancipatórias contemporâneas. A desvinculação entre sexualidade e reprodução teria transformado a intimidade num campo importante da construção reflexiva do eu, “desestabilizando um sistema institucional de repressão”. Este campo torna-se, portanto, órbita que também passa por um processo de democratização, entendido, sobretudo, como movimento que conduz à ampliação da autonomia –a crescente independência em relação ao passado para a auto-construção pessoal no presente e no futuro. Ao mesmo tempo, a reivindicação do prazer sexual feminino passa a representar um espaço de conquista e emancipação da mulher correlato às conquistas que esta obtém no espaço público (Ibid.: 196). Esta emergência da mulher como sujeito no plano da intimidade e a possibilidade aberta a homens e mulheres de transforma-rem o campo privado em esfera democratizada e reflexiva fazem a intimidade, no entender de Giddens, uma exten-são nece-ssária e cru-cial de realização das possibilidades emancipatórias que emergem no bojo da modernidade radicalizada. Os trabalhos mais recentes de Melucci, apontando na direção de pensar o indivíduo no contexto da sociedade global ou planetária (Melucci [a-b], 1996), mostram perspectivas muito semelhantes àquelas identificadas por Giddens. A rigor, o autor italiano carateriza nossa época de forma ambivalente, mostrando dois aspectos contra-ditórios da atualidade: por um lado, um condicionamento para uma forte indeterminação da identidade individual e, por outro lado, a existência de um não menos forte potencial de individuação ou auto-reflexividade. Melucci deixa transparecer certo otimismo quando alega a possibilidade de todos os indivíduos poderem expandir seu self, tornando-se cada um deles uma identidade independente, “um centro de tomada de decisão autônomo” (Melucci [b], 1996: 214). O processo de individualização teria sido historicamente restrito às elites e apenas contemporaneamente se teria se estendido ao conjunto da sociedade. O fenômeno que permite a Melucci sustentar este juízo é o acesso à informação, a qual constitui o principal recurso dos indivíduos para sua auto-reflexividade. O trabalho de Beck & Beck-Gernsheim (Beck, U. & Beck-Gernsheim, 1995), publicado originalmente em 1990, ressalta algumas transformações na esfera da intimidade que também seriam destacadas posteriormente por Giddens e Melucci. Contudo, mesmo sem distinguir adequadamente, a esfera pessoal da esfera íntima, o casal de autores indicam reconhecer a existeencia de um campo particular, no qual prevalecem regras singulares. Ipsis verbis: […] homens e mulheres devem praticar a velha virtude feminina do entendimento, da tolerância, da disposição para o acordo e de encontrar a coragem para estar sempre renegociando. Uma mera utopia? Nós podemos tentar. (Ibid.: 77) Os autores parecem reconhecer na esfera da intimidade uma especificidade que impede sua plena decodificação em categorias sociais. Mais do que isso, admitem uma tensão irredutível situada entre o desenvolvimento do indivíduo no plano público, nos termos requeridos pelas instituições modernas, e seu bem estar na esfera que denominam privada. Isto é, as regras impostas para o sucesso profissional, as exigências de cada vez mais competitividade e flexibilidade, implicariam custos emocionais insuportáveis e em dificuldades intransponíveis para as pessoas seu domínio pessoal. Haveria, portanto, um paradoxo implosivo da vida pessoal e caracterizado pelo desenvolvimento simultâneo de duas tendências contraditórias. O avanço do processo de individualização e de atribuição de maior autonomia e, consequentemente, maior responsabilidade na realização de escolhas para as pessoas individuais, faz-se acompanhar de uma complexificação da sociedade e da decorrente intransparência dos processos sociais. Estamos condenados, portanto, a tomar decisões cada vez mais plenas de consequências a partir de fatores sobre os quais não temos o menor poder de influência (Ibid.: 40) Além das tensões decorrentes do conflito entre as exigências da vida pública –a carreira, a sustentação do status familiar, etc.– e as demandas emocionais-pessoais, haveria uma tensão potencial interna dentro da própria órbita privada, representada pela transformação radical do lugar da mulher dentro da família. A família nuclear, característica da época moderna, teria se sustentado pelo menos até os anos 60 ao custo do sacrifício dos direitos da mulher, anulados e esquecidos. Quando a mulher emerge, entretanto, como sujeito de sua própria biografia, alguém que também percebia um leque de possibilidades para a construção de sua própria trajetória pessoal, as dificuldades de manutenção do matrimônio e da família se agravam:4 aquelas tensões mais gerais entre as exigências sistêmicas e as demandas emocionais-pessoais passam a ter na família um universo particular de manifestação e concretização. As dificuldades de sobreviência da família ao invés, contudo, de reduzir sua importância, fazem-na crescer. Ao lado do incremento do significado da família, cresceriam também o prestígio do e a aposta no amor. O contexto contemporâneo de riscos e incertezas levaria ao triunfo da relação amorosa como depositária de todas as esperanças, o amor torna-se … “nossa alternativa à dúvida: é o lugar no qual esperamos encontrar segurança, o último refúgio” (Ibid.: 192). IIIA natureza e as conclusões razoavelmente distintas apresentadas nas reflexões, por um lado, de Giddens e Melucci e, por outro, de Beck & Beck-Gernsheim, obrigam-nos a uma apreciação correspondentemente diferenciada das contribuições. Os trabalhos de Melucci e de Giddens apresentam prescrições bastante explícitas, contêm, por assim dizer, um projeto para o self contemporâneo. E é exatamente contra uma tal empreitada de transformar a intimidade num bastião da construção daquilo que Giddens chamaou de eu reflexivo que gostaríamos de desenvolver nossos argumentos. Tornar transparente a intimidade parece ser o projeto comum que une Giddens e Melucci. Ora, porque tornar transparente o que foi criado para não sê-lo? Es aqui a resposta que nos devem esses autores. A democratização, disciplinarização ou legalização da vida intima não representariam, precisamente, a negação da condição de desenvolvimento do self moderno? De Mill a Foucault são muitos os autores que, de diversas maneiras, registraram a importância da construção e preservação de um espaço próprio para a produção de sentidos que não são plenamente decodificáveis em categorias sociais. A transparência da intimidade pretendida, por exemplo, pela sociedade americana no caso Clinton ou pela sociedade inglesa com relação aos ministros homossexuais carrega um ranço de totalitarismo, ainda que perseguida em nome do princípio democrático da prestação de contas pelas autoridades públicas. Totalitarismo soft, se o leitor preferir, mas nem por isso menos perigoso no contexto atual. Ainda que numa outra forma, o que está em jogo hoje, como o que esteve em questão na Itália, na Alemanha ou na União Soviética dos anos 20 e 30 deste século, é a natureza humana. Segundo Arendt, um aspecto básico do totalitarismo está constituído por seu intento de eliminar qualquer tipo de relações íntimas ou privadas entre os homens, transformando-os em “feixes de reação intercambiáveis” (Arendt, 1973). Preservar a intimidade de qualquer normalização invasiva, venha de onde vir, significa assim garantir as condições para o desenvolvimento do self moderno. Se tivéssemos que simplificar nossa posição numa frase, diríamos que hoje enfrentamos a tarefa de defender o self moderno da própria modernidade. Com a emergeencia da intimidade, surgida na transição para a modernidade, desenvolveu-se uma cultura que permitia um equilibro entre os fatores emocionais e racionais de nossa condição humana. A intimidade moderna tirou os seres humanos do dualismo pré-moderno entre um mundo transcendente, supostamente harmônico e perfeito, e um mundo imanente, supostamente emocional e caótico. No entanto, estamos hoje desenvolvendo uma cultura que dá novamente à racionalidade instrumental uma validade transcendente e ao emocional um caráter arbitrário ou caótico (Maturana, 1998: 52). Por isso, é cada vez mais difícil para nós aceitarmos “dormir com uma desconhecida” ou, em outras palavras, estabelecermos “relações íntimas” entre a razão orientada para fins que regula nossa inserção no mundo social e a fortuidade e intensidade de nossa vida emocional. Não se trata aqui da defesa de uma hierarquia dos níveis de nossa existência, subordinando nossa dimensão pública à nossa dimensão pessoal/íntima. Tampouco trata-se do apelo obscurantista pela preservação das misérias da vida privada –a submissão das mulheres, a opressão das crianças, etc. A crítica feminista já mostrou adequadamente que a distinção entre público e privado é uma construção histórica que estabelece, de saída, a inaceitável desigualdade de gênero. Contudo, a subordinação da vida íntima e das múltiplas possibilidades de desenvolvimento pessoal que ela nos oferece às regras e ao formato estabelecidos por um projeto teórico-político, como pretendem Melucci e, mais do que ele, Giddens, parece contrário à idéia mesma de reflexividade. Se esta é definida, em sua dimensão pessoal, pela possibilidade de crítica aos papéis sociais que nos foram legados e caracterizada, no plano epistemológico, pela radicalização das categorias modernas, então a reflexividade deve significar o aprofundamento da intimidade e não sua recusa em favor de um projeto político-intelectual. Não vemos razões para abdicar ao potencial emancipatório proporcionado pela gratuidade das relações íntimas para dar a estas um sentido instrumental. Beck & Beck-Gernsheim mostram-nos de forma convincente que o pleno desenvolvimento da vida íntima não encontra-se obstaculizado na falta de sentido instrumental desta dimensão de nossa existência, ela pode ser vista precisamente como o locus da construção de sentidos, na sua forma mais enfática. A ameaça à vida íntima provém da internalização e reprodução no plano pessoal das demandas sistêmicas: as solicitações profissionais, comerciais, políticas que viram as necessidades humanas de cabeça para baixo, subvertendo as relações entre meios e fins. Com efeito, está colocada em pauta uma descaraterização da intimidade, a desvalorização de nossa vida emocional através de sua sujeição aos imperativos sistêmicos e à sua lógica inerente. Do ponto de vista de sua natureza, a vida pública, a vida privada e a vida íntima não são antinômicas, mas complementares. Porém, a crescente perda de nossas referências emocionais no mundo da alta modernidade, efetivada através da instrumentalização sistêmica da intimidade representa uma perversa inversão do mundo pré-moderno. Se naquela época a vida “pública” era colonizada pelo caos cotidiano das emoções privadas, hoje é a intimidade que está sendo colonizada. Da mesma forma que as pressões sistêmicas, entendemos que o projeto de politização da intimidade ameaça as distinções e a delimitação das fronteiras entre a vida pública, a vida privada e a vida íntima, estabelecidas no advento da modernidade. Como se mostrou, as esferas pública, privada e íntima constituem três campos distintos de atribuição de sentidos às ações sociais. Se como espaços da topografia social só podem ser identificados o campo público e o privado, quando se trata da produção e do compartilhamento de sentidos, percebe-se a emergência da intimidade como terceira esfera, cujo imperativo da existência é o caráter singular –não traduzível em códigos universais– dos sentidos aí gerados. Quando esses conteúdos são decodificados em linguagem pública, eles se transformam em narrativas esvaziadas de seu conteúdo original, não havendo razões para acreditar que a discussão pública sobre tais narrativas vazias possa repercutir sobre a vida íntima, “civilizando-a” reflexivamente. Diferentemente dos fenômenos que caracterizam a vida pública e também a vida privada, a qualidade das experiências íntimas não decorre, necessariamente, da aprendizagem e do aperfeiçoamento crescente; a intimidade não é uma sequência de processos cumulativos, mas uma colagem de instantes. É a intensidade do compartilhamento restrito de sentidos e emoções que define precisamente a cumplicidade singularizadora, a possibilidade de participar de uma relação social única e exclusiva. A plena experienciação das possibilidades própias à essa esfera decorre, por isso, mais da entrega, da espontaneidade e do desprendimento do que daquelas propriedades que marcam o eu reflexivo, nos termos de Giddens. Prescrever, portanto, um sentido social à intimidade, funcionalizá-la para a realização de um projeto de sociedade, parece-nos operação similar àquela que faz da vida pessoal a contra-parte necessária à reprodução sistêmica. Com efeito, a subordinação da esfera íntima ao projeto político e teórico de construção de um eu reflexivo equivale a colonizar intelectualmente a intimidade, representa, num certo sentido, a própria negação desta. A reflexão de Beck & Beck-Gernsheim, apresenta-se, de forma geral, desprovida de um tal projeto civilizador da intimidade. Com isso, as objeções que se pode levantar aqui não têm a mesma relevância daquelas feitas aos trabalhos de Melucci e Giddens e dizem respeito mais pertinentemente ao diagnóstico das sociedades contemporâneas e das vidas amorosas nessas sociedades apresentado pelo casal de autores alemães. Para que a aposta que os autores fazem nas possibilidades dos amantes contemporâneos encontrarem o caminho da auto-compreensão e da tolerância recíproca não soasse como mera profissão de fé, seria necessário que apresentassem evidências mais convincentes de que as tensões entre as exigências sistêmicas e as demandas da vida pessoal e íntima são empiricamente menos importantes do que eles próprios prenunciam. Nesse mesmo sentido, a caracterização dupla que fazem os autores das relações amorosas na contemporaneidade parece-nos também sujeita a reparos. De um lado, apontam, criticamente, o amor e a representação idealizada das relações amorosas como conformadores de uma certa ideologia, de uma nova “religião secular”. Ao mesmo tempo, contudo, referem-se às relações amorosas como um universo real –empiricamente dado– de construção do “não comercial, do não calculado, da não exploração”, desconsiderando o próprio diagnóstico que fazem da contemporaneidade, do qual despontam seres errantes; com dúvidas graves e ansiedades justificadas, com uma intimidade muito revolvida, mas pouco resolvida. Ao fim, portanto, as análises de Giddens e Melucci, ao subsumirem a esfera íntima na esfera privada, e a de Beck & Beck-Gernsheim, ao ignorar a implausibilidade empírica das possibilidades que apontam, revelam algo em comum: quebrados todos os tabus, a intimidade permanece, para a teoria social contemporânea, uma fascinante desconhecida. Tal significa mais que um problema teórico. Atesta as dificuldades práticas da sociedade para enfrentar seus dilemas. Num contexto, no qual as sucessivas e cada vez mais velozes revoluções tecnológicas afetam todos os aspectos da vida humana, cercear a intimidade equivale à condernar-nos ao cego destino de viver uma realidade puramente exterior. LC Notas1 A referência ao caso Viviane/Michel aparece em artigo de Zygmunt Bauman (“Zerstreung der Macht”, Die Zeit, No. 47, nov. 1999), mencionado passagem do sociólogo francês Alain Ehrenburg. 2 Para uma apresentação do debate atual sobre a reflexividade ver Giddens, Anthony et al., Modernização Reflexiva, São Paulo, Unesp, 1997; e como exemplo de aplicação do conceito de massa à sociedade moderna ver Canetti, Elias, Massa e Poder, São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 3 Giddens, A., A transformação da intimidade, São Paulo, UNESP, 1993. Nesse trabalho, Giddens focaliza, com certo desapego teórico, a questão da intimidade, valendo-se de categorias e problemas em boa parte já delineados em livro anterior, marcado por maior rigor conceitual e analítico (ver Modernity and Self-Identity, Stanford, Stanford University Press, 1991). Apesar do diferente estatuto teórico de ambas obras, nossa reconstrução do argumento de Giddens baseou-se mais no primeiro trabalho por ser aqui onde ele focaliza em profundidade o tema da intimidade, permitindo assim que os deficits de sua visão apareçam de forma mais evidente (portanto, as citações a seguir correspondem integralmente a A transformação da intimidade). 4 Não obstante, a emancipação da mulher oferece, conforme os autores, como seu subproduto, a possibilidade de emancipação masculina. Ela livra-o de obrigações e papéis difíceis de cumprir, pode mesmo prestar-se à relativização da submissão à carreira e à organização que o emprega –contraparte necessária do patriarcado doméstico (Ibid.: 151). Bibliografía Arendt, Hannah (1973), The Origins
of Totalitarianism, Nova Iorque, HBJ. |
|
Volver a página principal |
||
|
Regresar al sumario
|